Marcos e Juliana se conheceram num almoço de brasileiros em Málaga. Os dois tinham chegado no mesmo mês. Os dois sentiam saudade do Brasil. E os dois estavam cansados. Mas, conforme a conversa avançou, ficou claro que estavam vivendo mudanças muito diferentes.
O Marcos foi transferido pela multinacional onde trabalha há doze anos. Veio com contrato de três anos, apartamento pago pela empresa, escola das filhas resolvida e uma data provável de volta. A Juliana veio por conta própria, com o marido. Venderam o carro, alugaram o apartamento em São Paulo e decidiram recomeçar. Não tem data para voltar. Nem plano B.
"Você é expatriado ou imigrante?" Muita gente acha que é só uma questão de nome. Não é. A forma como você chegou ao novo país influencia a sua adaptação, a sua identidade e até a forma como a sua família vive a mudança.
O que pesava para o Marcos
À primeira vista, o Marcos tinha tudo mais fácil. Mas, por dentro, ele carregava outras pressões:
- A sensação de "vida provisória": não valia a pena criar raízes se ia embora em três anos.
- A cobrança de entregar resultado rápido, numa cultura de trabalho que ele ainda não entendia.
- Uma identidade muito presa ao cargo. Quando uma reunião ia mal, o dia inteiro ia mal.
- A esposa, que deixou o próprio trabalho para vir junto e estava cada vez mais calada.
O que pesava para a Juliana
A Juliana não tinha a empresa por trás. O peso dela era outro:
- Reconstruir tudo: carreira, rede de apoio, documentos, reconhecimento profissional.
- A cobrança de que "tinha que dar certo". Voltar parecia fracasso.
- O luto pelo que ficou no Brasil, sem tempo para ser vivido.
- A sensação de não ser mais de lá, e ainda não ser daqui.
Nenhum dos dois tinha a mudança mais fácil. A mudança só pesava em lugares diferentes.
O que está por trás
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, olhamos para as crenças que sustentam as emoções. O Marcos repetia para si mesmo: "É só uma fase, não preciso me envolver." No começo, isso protegia. Com o tempo, deixou a família isolada.
A Juliana vivia com outra frase: "Se eu voltar, falhei." Essa crença aumentava a ansiedade e tirava dela a liberdade de escolher.
Identificar e revisar essas crenças torna a adaptação mais leve, seja qual for o caminho.
Quando a família entra na conversa
Em qualquer um dos dois casos, quem decide a mudança costuma ter algo que o resto da família não tem: um propósito claro. O cônjuge que deixou a carreira, o adolescente que perdeu os amigos e as crianças que não entendem por que tudo mudou estão vivendo a mesma mudança por motivos que não são deles.
Naquele almoço, a Juliana fez uma pergunta que o Marcos não esperava: "E a sua esposa, veio por quê?" Ele demorou para responder. Naquela noite, levou a pergunta para casa.
Perguntas simples como essa ajudam muito:
- Qual foi o motivo da mudança para cada um de nós?
- O que cada um perdeu e o que cada um ganhou?
- Quanto tempo imaginamos ficar, e isso está claro para todos?
- O que precisamos construir aqui para nos sentirmos em casa, mesmo que por um tempo?
Para quem está vivendo isso
Se você se reconheceu no Marcos, na Juliana ou em alguém da sua família, saiba que esse caminho não precisa ser feito no escuro. Atendo online, em português, brasileiros que vivem fora e executivos em expatriação. Agende uma conversa inicial pelo site.
E você, se parece mais com o Marcos ou com a Juliana? Me conta nos comentários.
Marcos e Juliana são personagens fictícios, inspirados em situações comuns na clínica.

